domingo, 18 de janeiro de 2009

Terra e cor

Santa Rosa, no noroeste gaúcho, tem a terra mais vermelho escura que conheço. Ela tem características especiais. Na área rural as casas tem uma borda inferior avermelhada, até onde o respigar da chuva que bate no solo alcança. Mais ou menos na altura dos joelhos. As nuances de cores variam de um vermelho bem escuro próximo do solo até um laranja bem clarinho no alto desaparecendo lentamente. Suave como uma aquarela.
Quando chove a terra se torna uma massa pesada, grudenta e escorregadia. No tempo de criança gostava de surfar de pés descalços sobre a terra compactada em frente de casa. O solo ficava liso como sabão. Vinha correndo em toda velocidade e deslizava sobre esta pista de patinação improvisada. Uma delícia. Lembro de um dia especialmente quente de verão. Caiu uma chuva intensa e rápida, logo saiu o sol novamente e a água evaporava do solo como de uma panela fervente. Aquilo foi o máximo. Algumas das cicatrizes que tenho nos joelhos e cotovelos arranjei naquele memorável dia.
Com a terra molhada é praticamente impossível andar de chinelos. O barro vai se acumulando em camadas no solado até ficar com uma plataforma de 5 cm, a partir daí o chinelo não parava mais no pés. Um saco para caminhar! A solução era andar descalço ou de calçado fechado. Próximo da entrada das casas sempre há uma lâmina de ferro fixada na vertical, na altura dos pés, usada para raspar o barro acumulado.
Nesta minha última ida Santa Rosa trouxe uma amostra comigo. Queria ver seu comportamento quando queimada no forno cerâmico Na foto abaixo à esquerda é a terra original; acima à esquerda é o resultado quando queimada a 850 graus. Esta cor laranja/dourada acho que ficou bem legal.
Na foto à direita usei um torrão como pegador em uma tampa de caneca e queimei a 1260 graus. A cor mudou e a terra ficou dura como uma rocha. O passo seguinte será moer a terra em um moinho especial para cerâmica chamado de moinho de bolas, de origem medieval. Vou ver se posso usa-la como corante para esmaltes.
De repente consigo descobrir mais uma característica desta peculiar terra que gruda nossa memória e os pés literalmente ao chão

Um comentário:

Silvia disse...

Vou prestar atenção a terra da região, por aqui há várias ceramicas e mesmo no terreno onde moro há vários tipos de barro. Sei bem o que é andar de sandália no barro! Temos esta lâmina pra limpar o calçado, na forma de um cachorro lingüiça.